7.3.07

Desilusão

Meu irmão estava me dizendo noutro dia que se sente super culpado por andar de carro sabendo do efeito estufa e das mudanças climáticas do planeta. Para a cabecinha dele eu acho que é o tipo de pensamento completamente dispensável.
Mas daí eu me lembro o quanto sofro quando penso na efemeridade das coisas. E cá estou, deprimida again, por concluir o óbvio: tudo acaba. Humpf.

4.3.07

29

Nasci há 29 anos. A primeira imagem que tenho em mente é de meu pai segurando minhas mãos me ensinando a dar os primeiros passos. Viagem ou não, é uma imagem forte. Lembro que aos 4 minha mãe me acordou na manhã de 24 de dezembro avisando que o papai Noel ia passar em casa à noite: esse é o primeiro Natal de que me recordo. Ainda pequeninha eu prendi o dedão na porta do quarto e doeu um monte, e minha unha desse dedo nunca mais foi a mesma. Uma outra vez, nesse mesmo quarto, fiquei de castigo e desarrumei tudo para demonstrar minha insatisfação com aquele corretivo que me aplicaram. Lembro do bolo de aniversário em forma de tronco de árvore e aquele da casa da Moranguinho. Eu colecionava papéis de carta e os trocava, mas o destino deles era o meu futuro namorado, que nunca recebeu nenhum daqueles papéis pois eu tinha um apego fora do normal com eles. Fui fã de Menudos e Dominó. Tinha pavor em dar meu primeiro beijo. Sofri um trauma com a mudança de casa em 1989, e ainda mais com a mudança de escola, pois deixava para trás os meus amigos e meu primeiro amor. Na nova escola aprendi a pensar em mocinhos com mais frequência e ouvir trilhas sonoras para um amor desencontrado. Foi lá também que aprendi a andar de ônibus. Era popular e jogava mal e porcamente o voleibol. Em compensação eu dançava como ninguém. Dei meu primeiro beijo no meu segundo amor, aos 12 anos de idade. Aos 13 mudei de escola e conheci amigos que são presentes em minha vida até hoje. Fiquei fanática por Information Society quando me apaixonei de verdade pela terceira vez na vida, engatando um namorico de 5 anos que moldou uma série de coisas em mim: me transformou em alguém pensativa e de alma envelhecida. Aos 15 eu arranjei o meu primeiro emprego e adquiri responsabilidade, ao mesmo tempo que fazia agenda e descobria meus dons. Foi nessa época que Roxette me fazia chorar, mas já ouvia Smiths e achava o máximo. Aos 16 eu descobri que Deus existia e minha mente começou a se abrir para a vida. Aos 17 eu sofri de depressão por motivos bem tristes, e aos 18 continuei mergulhada nisso por um bom tempo, renascendo com o fim do namorico. Tive um amigo importante que me ajudou a chorar nesse tempo e me levou para conhecer pessoas e diversões, mas foi uma época em que me senti perdida. Entrei na faculdade em 1996. Passei 5 anos nulos indo à graduação. Nulos de vida. Virei workaholic nesse meio tempo. Meu irmão mais velho sofreu um acidente de carro que mudou as nossas vidas em 2001, véspera de Natal. Meu namorado foi morar no sul do país. Meu pai foi embora de casa. Passei a ser o homem da casa e amadureci ’50 anos em 5 meses’. Abri um escritório com uma das minhas melhores amigas e saí da casa de minha família aos 27 anos. Aos 28 eu mergulhei em mim e tomei decisões de gente grande. Nesse período uma pessoa me perguntou:
- Quem é a Cátia???
E aos 29 eu ainda não sei responder bem a essa pergunta. Só sei que nasci na época e no local errados. Que sou dada à melancolia. Que tenho um gênio forte. Que gosto de bolinhos de chuva. Que gosto de me molhar na garoa. Que adoro o céu de outono. Que cultuo o hábito de acordar às madrugadas. Que amo ler. Que não como fritura sem torcer o nariz. Que venero música. Que sou viciada em café. Que morro por pessoas. Que possuo mais saias rodadas que calças. Que batalho além do normal. Que trabalho mais além ainda. Que tenho medos pertinentes. Que adivinho o sexo dos bebês. Que cozinho como Amélia. Que tenho fé em Deus. Que me acho cheia de imperfeições. Que sonho em fazer flamenco, teatro, gastronomia e filosofia. Que cresci como patinho feio. Que adoro o silêncio. Que sou polida ao extremo. Que condeno injustiça. Que escrevo por necessidade. Que tenho sede de cultura. Que adoro os presentes menos sofisticados e mais simbólicos. Que prefiro doces de compota à tortas holandesas e afins (mas deixe o brigadeiro fora disso). Que contemplo borboletas. Que não durmo sem banho. Que abomino machucar os outros. Que me derreto por fazer alguém que amo sorrir.
O essencial, no entanto, ainda está escondidinho.
Que será dos 30?

2.3.07

Patetices

Na pré escola o menininho mais chato da turma xingou Marina de boba e grudou chiclete em seu cabelo. Ele era perdidamente apaixonado por ela.


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Logo após deixar pichado em frente à casa a poesia de ambos, derramou pétalas da sua flor preferida na entrada do seu escritório e pagou ao tio do 'caminhão da cândida, da super cândida' para que colocasse a música dos dois no megafone quando estivesse passando por sua rua. Então ela sentiu saudades e resolveu mandar um email:
"Oi, tudo bem?
Queria dizer que você é importante para mim e que se precisar de qualquer coisa estou aqui...
Sinto saudades - Marina"
10 minutos depois veio a resposta:
- Marina, sua vagabunda! Você prometeu que seria minha prá sempre! Você me usou, você é decepcionante!!! Te odeio, viu Marina?
E ela pensou, pela enésima vez: 'sim, eu sou patética...'

17.2.07

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Sexta-feira de carnaval, quase meia noite, e estou aqui escrevendo. Mas esse não é qualquer assunto. Acabo de assistir ‘Brilho eterno de uma mente sem lembranças’, indicação de Verena que resolvi ir atrás tardiamente. Melhor assim, ele tem tudo a ver com meu momento: hoje é carnaval, e entro no ritual de reflexões que marca essa época em mim nos últimos anos. Nietzsche está lá. Korgis e a maior filosofia que me ronda nos últimos tempos também.

Estou lendo ‘Além do Bem e do Mal’ e a citação é daquelas que martelou na cabeça quando li. Nada demais, quase tudo martela na minha cabeça quando leio, mas gosto quando algo que assisto, leio, ouço aparece em outra obra que estou assistindo, lendo e ouvindo. O mesmo com acontece com Korgis, que me lembram muito algumas pessoas que amo e estão distantes, e tenho escutado exaustivamente. E as duas melhores no mesmo filme? Sem comentários, isso já bastaria para marcar a noite. Mas daí a tratar da (minha) maior filosofia dos últimos tempos? Aplausos para o filme que tem Jim Carrey maravilhoso (eu sei que não se aplica tão bem o nome dele à ‘drama’ nem ‘maravilhoso’, mas isso faz com que o filme seja mais surpreendente) junto à Kate Winslet como protagonistas.

Vamos à filosofia, que partiu do diálogo:
- Acho o seu nome mágico.
- É isso, Joel. Daqui a pouco vai acabar.
- É, eu sei.
- E o que podemos fazer?
- Enjoy! (não admito traduzir ‘enjoy’)

Aviso aos navegantes: Viver não é preciso! A vida é um acumulado de incertezas que nós fingimos não enxergarmos para conseguirmos poder de ação, pois somos covardes numa série de quesitos. A fonte de todo sofrimento é a constatação da vitória do que negamos para nós mesmos desde o início de qualquer história. Você não tem como garantir as pessoas que ama eternamente ao teu redor. Ou a vida, ou a morte, podem tirar isso de você a qualquer momento. Não se frustre por deixar de constatar o óbvio logo no início.

É isso: ENJOY!

O que dá a você alguma certeza de futuro? O que dá a certeza que sua saúde é infalível, que sua empresa não vai quebrar, que seu doce preferido não vai ser revelado como o vilão mais recheado de gorduras trans? Que o seu maior amor estará vivo daqui 50 anos ou, pior, vai te querer nos próximos 50 anos? Que seus filhos vão partir depois de você e você pode deixar para dizer que os ama amanhã? Que o ano que vem terá estações bem definidas e você poderá programar sua viagem dos sonhos? Que na véspera da competição você não quebrará a falangeta? Já parou para pensar que ninguém te pertence? Que seus planos são apenas planos? Que sua vida é frágil? Não deixe de agir. ‘E se isso, e se aquilo? Se? SE?’ Os ‘mas’ e os ‘se’s vão limar quase todas as suas oportunidades.

Há certeza (não, não há!) que algo lhe trará sofrimento? Hum... E??? Se o sofrimento não for por si a paga da sua escolha, ele trará crescimento, vivência, maturidade. Há algo que pague isso?

O que fazer? ENJOY! Viva, de verdade...

E então, na seqüência, dentro da casa que não lhes pertence (como tudo em nossa vida), ele diz:
- Eu queria ter ficado. E agora que eu queria ter ficado, eu também queria ter feito um monte de coisas. Queria sim.
- Eu queria que tivesse ficado.
- Eu também, mas saí. Fui embora.
(...)
- Estava com medo? – ela diz
- Sim.
- Por quê?
- Pensei que soubesse que eu era assim.
(...)
- E se você ficasse, dessa vez? Volte e faça uma despedida pelo menos. Vamos fingir que tivemos uma.
E olhando nos olhos dele, ela diz sorrindo:
- Goodbye, Joel.
- Eu te amo.

Depois disso eu quis voltar a várias situações na minha vida e fazer as coisas novamente, assim como gostaria de ter feito. ‘Queria sim’. Mas e daí? Eu sou a somatória de todas as coisas boas e ruins pelas quais passei. Olhar para trás, só se for para suspirar e aplaudir, independente do fim de cada história.

Assista. Se já assistiu, reprise.

Don’t look back!

‘Enjoy!’

Everybody’s got to learn sometime...

7.2.07

Filhos

Eu realmente não quero ter filhos. Torço fortemente para que isso mude um dia, mas a idéia, hoje, me apavora. E todo mundo questiona isso. Afinal, como EU, a mãe do mundo, posso não querer filhos?
Nada contra crianças. Amo minhas sobrinhas como amo minha própria vida. Mas ter um filho exige coisas de uma pessoa que acho que nunca estarei preparada para oferecer.
Ter um filho pede desprendimento e doação extremos.
Para se ter um filho você precisa ter estômago para cuidar do machucado e disposição para passar as madrugadas ao lado dele na convalescência.
É preciso engolir o ciúme diante da primeira namorada, estar pronta para ser avó antes do tempo e saber apoiá-lo se isso acontecer.
É preciso ser incentivadora para os estudos do vestibular e as defesas de teses da faculdade e da pós, além de conseguir receber com um sorriso a notícia de que vai morar fora de casa, talvez do país.
Saber ser fria para dar uma bronca. Saber ser força numa possível depressão. Saber ter força se ele partir antes de mim.
Para ter um filho preciso aprender, antes, ser guerreira, psicóloga, matemática, professora, médica e colo. Eu realmente não sei se tenho vida prá aprender tanto.

Daí alguns desvairados saem arrastando uma criança de 6 anos pelas ruas e eu concluo que não consigo nem sonhar com a possibilidade de ter um filho MESMO!

31.1.07

Querido Diário

Era um diário dos sonhos melhorado. As páginas em branco iam sendo escritas com canetas multicoloridas ao lado de recortes bem escolhidos. Planos, esperanças e descobertas. Coisas que começaram a se desenvolver naquelas páginas, onde era possível acompanhar sagas inteiras. Às vezes algo normal, às vezes uma pequena desilusão. E o tempo, e a vida, e as dores se mostravam. E a mulher com sorriso de menina foi amarelando como as páginas daquele diário.
Num outro canto da cidade outro diário amarelava. Algumas páginas caíam, mas seu escritor não se importava: ele já não se lembrava mais nada daquelas letras que havia passado madrugadas despejando em folhas ainda brancas.

26.1.07

Cansaço

Hoje saí disfarçada de população: apática, indiferente.
Pois tem hora que cansa viver e buscar caminhos.
Já que tudo pode ser falacioso, tem hora que buscar viver não faz sentido.
Então saí, disfarçada de população.