24.8.09

Partida


A possibilidade iminente de deixar a cidade apareceu e me tirou o sono por dias. Com uma carga de trabalho acima do normal, não sabia se a insônia aliada à dor de estômago e enxaqueca eram resultado de um ou de outro. Ambos os fatos me fizeram pensar.

Deixar para trás família e amigos sempre foi dos meus maiores pesadelos. Eu jamais pensei em sair da cidade ou do país, apesar da insistência de alguns amigos que já tomaram esse rumo e qualquer viagem mais longa me faz querer voltar para casa após uma semana. Mas dessa vez foi diferente. Não sei se por causa do cansaço do trabalho, das pessoas, da vida, mas dessa vez olhei para isso de forma oposta.

Eu sou uma esponja. Eu absorvo os outros, o problema dos outros, cultivo uma responsabilidade sobre o alheio que chega a ser doentio. E essa carga vem me deixando pesada de uma forma que eu não consigo mais ir adiante. Então uma partida me pareceu tão sedutora, como se o foice que evitei usar a vida toda viesse pela mão de outra entidade e me cortasse o cordão umbilical, os vícios, o indesejável. O peso. Minha vida teria espaço para tantas coisas, melhores e mais sadias. Talvez eu conseguisse, enfim, me contentar com um turno de 8 horas (apesar dos mais chegados duvidarem disso veementemente), pudesse andar de bicicleta e ter um cachorrinho. Talvez eu curasse a gastrite, a bursite, o mioma, a tendinopatia, a esofagite e o hiato, e todos os problemas de saúde que surgem já graves para tratar em qualquer exame bobo de rotina.

Apesar da possibilidade estar quase descartada, tudo o que pensei diante disso não. Vejo um pequeno clarão com fundo azul despontando daquele céu escuro que me acompanha há anos. Pois eu cansei e, mais ainda, percebi o cansaço. E quero ver o céu azul, e quero sorrir, e quero tantas coisas que agora sei que quero.

Minha partida tem o gosto de chegada.

25.6.09

Dancing Machine

Eu e minha prima éramos grudadas quando crianças. Estávamos sempre juntas na casa de uma ou outra, dançando e rindo sem parar.

Tínhamos duas paixões: Menudos e Michael Jackson. Me lembro até de um dia em que uma tia dela nos via dançar Michael Jackson para julgar quem era melhor no rebolado. Exagerei com o quadril e perdi a competição.

Na pré adolescência eu ouvia BAD exaustivamente enquanto sonhava com o dia em que ia casar com aquele cantor fantástico que dançava de forma incrível. A paixão platônica começou a ir embora junto com a melanina de sua pele.

Um vizinha de quase 2 metros de altura foi comigo ao show dele aqui no Brasil, quando eu gastei meu salário de vendedora de shopping para ver meu ídolo mais de perto. Passei o dia na fila mas fiquei bem na frente, esmagada, suando sem parar. Lembro bem das vezes que tirava o pé do chão e era levada pela multidão para todos os lados. Lembro mais ainda do momento em que ele jogou o chapéu para o público e minha vizinha conseguiu segurá-lo com a pontinha dos dedos, mas desistiu do prêmio de tanto que foi pisoteada pelos vizinhos da pista. Jurei por muitos anos ver as manchas do suposto vitiligo sob a luva brilhante naquele dia, e até hoje tenho minhas dúvidas do que vi. O fato é que esse foi, sem dúvida, o melhor show que fui em minha vida.

Hoje cheguei em casa vendo os boatos da morte do Michael. Jurei por instantes que isso era um golpe publicitário que se somaria às demais bizarrices da vida do Peter Pan do mundo pop. Mas depois de quase duas horas eu assisti perplexa à notícia oficial de sua morte.

Não é novidade para ninguém o quanto gosto dele. Já citei isso aqui no blog, e nos últimos dias dei a um post bobo o nome de uma de suas interpretações que mais gosto. Quem convive comigo é sempre obrigado a decorar todas as músicas do astro desde a sua infância e já me viu dançar I Want You Back pelo menos uma vez. Certamente pipocarão piadinhas por todos os lados nos próximos dias. Vou rir com elas, reproduzir algumas. Mas aqui no meu confessionário eu devo dizer que estou triste. Bem triste. Eu ainda cultivava o sonho de rever um show de Michael Jackson e mais ainda uma reunião dos Jackson Five. Essa foi uma grande perda.

Vi uma reportagem com alguém dizendo que Michael sempre foi um incompreendido, e que seus atos infantis vindos de um corpo de um adulto fizeram-no passar o inferno na terra. Uma criança com a infância tolhida certamente não seria um adulto normal: nos últimos tempos víamos um homem problemático, sozinho, triste. Talvez agora ele conheça um pouco de paz, talvez agora ele esteja realmente em Neverland.



Sei que essa história dele morrer dias antes da sua última série de apresentações me parece mais bizarra que a própria vida do popstar. Não estranhem se me encontrarem em alguma comunidade do tipo 'Michael is alive', segurando uma faixa com os dizeres 'Michael, I want you back' nos próximos dias.

24.6.09

O que é que há, velhinho?

A Carol achou o meu 1o fio de cabelo branco. E apesar da Helena ter dito que quando tinha 15 anos ela tinha uma mecha de cabelos brancos que depois sumiram, eu creio que no meu caso esse fio foi o 1o de uma série. Triste...

15.6.09

And in the end...

...the love you take
Is equal to the love you make.

14.6.09

Ain't no sunshine

Ele já não lembrava há quanto tempo não se viam: ambos eram adolescentes descobrindo como sofrer por perder o primeiro amor quando deixaram de se falar. Nenhum dos dois sabia se aquilo era necessário, mas o fato é que seguiram suas vidas, distantes, em cidades diferentes. Inesperadamente, ele se depara com aquela mulher linda, segura e com um sorriso que ele não conhecia bem. Ela o cumprimentou eufórica e deu um dos abraços mais apertados que ele recebera nos últimos tempos. Enquanto ele tentava responder às perguntas que saíam de sua boca em disparada, pensava em como o tempo havia sido generoso com ela, no quanto ela tinha amadurecido e nos motivos que o fizeram partir. Num curto espaço de silêncio, ele não conseguia pensar em que falar: estava para partir novamente e talvez uma nova década não desse outra chance para um encontro daqueles.

- Me dê seu telefone, e-mail, qualquer coisa que não nos deixe perder contato novamente!

Tantos anos, e ele não tinha perdido o jeito de se denunciar em frases soltas após o silêncio, ela pensou. Um novo abraço, mais demorado. Ela sorriu.

- Melhor não...

E dessa vez, foi ela quem se virou e partiu: aquele havia sido um encontro qualquer.

16.4.09

Oração

A Fer acaba de me ensinar a rezar corretamente:

"Senhor, sempre te peço força... Mas agora te peço paciência, pois se me deres força saio matando todo mundo pelo caminho!"

É rir pra não chorar.

28.3.09

Valores

E cada vez mais nós valorizamos coisas que não são minimamente necessárias. Trabalhamos o dia todo, para chegarmos em casa cansados com tempo apenas para um banho rápido antes de desmaiarmos na cama e começarmos o outro dia da mesma forma. E para quê? Para ter o móvel da revista, o carro do ano, o computador com o último processador do mercado ou um celular com um design mais interessante, com a desculpa de que ele é 3G e vai economizar seu tempo. Tempo para quê, mesmo? Para trabalhar mais e conseguir comprar mais coisas que não teremos tempo de usar. Enfim, é como diz Madá: a gente trabalha para pagar as necessidades que a gente insiste em criar e que, no fundo, nos afastam da vida.

Após anos, então, vejo o homem que já foi meu ícone masculino, meu ícone de proteção, provisão e segurança falando chorosamente ao pronunciar meu nome. Ele tem os cabelos muito mais grisalhos do que quando o vi pela última vez, e se aproximou com uma humildade que eu não conhecia nele. É herança dele a forma de se expressar de meu irmão mais velho. E também é dele a paixão que o mais novo tem por invencionices. Sua teimosia explica boa parte da personalidade da minha irmã. E eu... não me reconheço nele. Mas o amo, por ser quem é na minha vida. Coisa que Deus talvez explique, vai saber? O fato é que, felizmente, não herdei dele essa busca incessante pelo 'ter' que se sobrepõe ao que julgo essencial e que hoje reconheço mais que nunca como o que realmente importa. Foram necessários anos de solidão e distância para que ele percebesse o que é realmente necessário para viver.

Aqui dentro eu tenho um desejo imenso de que dessa vez ele faça as coisas de forma diferente, e de que não se esqueça das lições que a vida lhe deu nos últimos tempos. Tempo perdido, meus caros, é tempo perdido: não importa o quanto se aprenda com ele. Reconheço o tamanho do passo que ele deu para chegar até o meu lado do muro e sei o quanto isso foi difícil para alguém orgulhoso e que não admite estar errado jamais. Estou feliz.

Por outro lado estou achando muito esquisito ter um pai. Ele já não é mais ícone de coisa alguma que já foi. Preenchi essa lacuna assumindo na minha família justamente o papel de quem me faltou. E caso ele permaneça do lado de cá, precisarei achar um lugar para essa relação na minha vida. Isso tudo é muito estranho.

O que me alegra, em detrimento do que me chateia por ver tudo isso, é reconhecer que o lado do muro em que fiquei tem tudo o que eu preciso.