23.2.11
Eu
Ótimo.
Agora, é leve? Não. É fácil? Não. Muito menos tranquilo. É bem perturbador em alguns momentos, para ser bem sincera. E, me diz: é possível não ser dessa forma?
Talvez não hajam respostas para algumas perguntas, e isso me apavora. Talvez eu tenha que viver algumas coisas repetidas vezes, tropeçar, machucar e estar lá novamente cometendo as mesmas idiotices. Pois o problema da idiotice é justamente de não parecer idiota quando a memória falha.
Daí eu penso. Eu tenho o momento eureka, e eu fico realmente feliz com isso. O importante é 'dar sentido', senão não há sossego. E não importa se o sentido nao faz sentido, e que eu perceba pouco depois que a lógica não era aquela, mas sim que, sim!, existe outra equação. Pois no fundo eu sei que haverá novo tropeço, novas feridas, novas nuvens pesadas e o mesmo questionamento de sempre: que motivo te levou a andar nessa trilha de novo?
Eu conheço meu pai. Eu sei minhas falhas profissionais. Eu sei o que me deixaria contente. Eu sei o que me faz bem e o que não faz. Eu sei quem me ama, e quem é indiferente à minha pessoa. Eu sei definir bem o tratamento que as pessoas me dão. Sei o que me engorda, o que me tira o sono. Sei até como serão os dias que virão. Só não sei o óbvio: não ande pela estrada com o buraco de novo. Pois se somente eu posso tapar o buraco e não tapei, que catso estou estou fazendo perambulando por aqui de novo?
Dos melhores diálogos do mundo
30.1.11
23.1.11
Sobre o crescer
É claro: não há um padrão e talvez o início da minha 4a década não soe nem de longe com a dos demais. Mas há de se reconhecer que 30 anos de vida são uma dádiva, e que só se percebe isso quando se entra na casa dos 30. Nada se compara ao que a experiência pessoal nos acrescenta.
Sinto falta do que eu fui? Talvez, em alguns sentidos. Mas na maioria deles apenas me vejo como 3a pessoa da minha história. Quando me recoloco dentro de mim para ver o que se passava realmente comigo, é aí que me surpreendo: as piadas brotavam com um lindo sorriso no rosto da moça que estava com o coração dilacerado. Objetivamente, eu já era uma pessoa madura para alguém daquela idade. Minhas criancisses foram abandonadas antes do padrão, pelo que vejo. Mas havia isso de sorrir mesmo com o sapato apertado.
Isso se foi. E o melhor: o sorriso também. O sorriso mentiroso não existe mais. Sinto falta de sorrir, mas se fosse realmente contar os meus sorrisos sinceros talvez a média de hoje não seja tão inferior ao que era. A diferença está no quanto me poupo de fazer cena atualmente. E, Deus, como isso é bom!
Aprendi muito com isso aqui, e acho que cada dia mais essas palavras norteiam meu agir. Pois não há nada mais importante do que ser (ou ao menos tentar ser) honesto consigo mesmo e poupar-se da encenação, ou da justificação para pessoas que esperam justamente que você assuma a culpa de todos os seus problemas. E daí que algumas pessoas hoje certamente me taxam de intolerante, mas elas não sabem o quanto isso faz de mim alguém melhor. Na minha intolerância residem as defesas do amor que há em mim, e que antes disso era bombardeado a todo momento. E, olha, eu tenho orgulho do amor que eu posso oferecer.
Na minha curta terapia há alguns anos fiz a grande descoberta do quanto sou manipulável. Do quanto minha fraqueza jorra ao ver aqueles que amo precisando de mim. E outra: busco entrelinhas e me anteponho ao problema, me uso de escudo para o outro ainda que isso me machuque. E, se quer saber, eu estava morrendo. Pois em determinado ponto eu não via nada de mim mesma, eu só me via em cena de terceiros, defendendo, ajudando, pegando pela mão e, pior, sendo mal interpretada. E daí vieram os 30.
Me intrigava ouvir minha mãe dizendo que gostaria de ter o corpo de 20 com a cabeça que ela tinha aos 40. Mas mamãe, como sempre, estava certa. Nada no mundo é melhor do que o crescer. Eu não sou imune ao sofrimento. Aliás, eu sofro exponencialmente mais pelo fato de existir mais verdade dentro de mim. Mas não uso meu esforço para justificações, para humilhações, para competições, para defesas que não sejam as minhas. Não há mais palco para esse tipo de cena da minha parte, e percebo nitidamente os exercícios daqueles que me usavam em me provocar. Eu emputeço. E me afasto.
Me afasto, com prazer, de quem pediu ajuda e não soube agradecer, ou com quem diz que sumi, mas que não apareceu. De quem diz que me ama, mas usa dos mesmos gestos com pessoas sem significado, ou me diz sentir saudade, mas nunca dá um passo adiante. Não há energia dentro de um ser humano que não se consuma ao ceder a todas essas chantagens emocionais e, lembrem-se: eu quase morri. Cansei, era impossível prosseguir assim. Eu usei meias palavras comigo mesma com medo da dor de assumir tudo isso para mim mesma, mas a dor foi ainda maior por ter agido assim.
Se hoje tivesse que definir a mim mesma diria que sou uma pessoa de sorriso raro mas cheia de intensidade. Não há impulsos, mas há um agir por paixão. Não há arrogância, mas há um zelo ao que tenho de melhor, um agir por proteção, um instinto de sobrevivência de um bom coração que ainda habita aqui. Há uma dor aqui dentro que não tem cura, nem mesmo do tempo. Mas há uma pessoa com a experiência de todas as guerras internas que viveu cuidando de si própria.
17.1.11
Starring
28.11.10
Quem me dera ao menos uma vez
(Índios - Legião Urbana)
26.10.10
A vida é mesmo assim...
Quando era pequena tinha muita dificuldade em descrever minha família. As demais crianças diziam que suas famílias tinham 3, 4, 5 pessoas. A minha tinha 17. Até que me corrigiam dizendo que 'família' eram meus pais e irmãos. Éramos 5 até então. Os outros 12 eram meus avós, tios e primos até então nascidos, todos por parte de mãe. Mas não fazia sentido não contá-los em minha família, pois era assim que os sentia.
Meus avós maternos tiveram 7 filhos. Um deles morreu com 3 meses de vida, o outro com 3 anos. Não sei o nome deles nem o motivo da morte, pois ninguém fala nisso. Para minha avó ela tem 5 filhos, e pronto. O meu tio mais velho teve uma menina 1 ano depois que nasci, e nós crescemos juntas. Ele tentou outros, mas minha tia não conseguiu chegar ao final de nenhuma outra gravidez. Então minha prima e eu éramos como irmãs. Estávamos juntas sempre e somos confidentes até hoje. Ela se chama Aline. E meu tio me chama de riqueza, princesa ou moleca. Fofo.
Meu tio mais velho, o pai da Aline, teve muito dinheiro. Ele era o exemplo de sucesso que tínhamos e era quem provia tudo a quem precisasse, principalmente aos meus avós. Meus pais já precisaram de ajuda, e ele nos estendeu a mão mais de uma vez. O problema é que ele estendeu demais a mão para todos, e um dia perdeu tudo, inclusive coisas que não eram dele. Até o dia que não teve onde morar e foram meus pais que estenderam a mão para que eles morassem em casa. Pouco tempo depois disso meu tio conseguiu alugar uma casa e em seguida minha prima engravidou e nasceu a Maytê, que é minha afilhada. E a mocinha recém chegada trouxe consigo toda a responsabilidade à minha prima, que cresceu à força, mas com toda a dignidade do mundo.
Desde então meu tio tenta se reestabelecer. No último final de ano ele esteve em casa para jantar comigo e ele me disse que já teve tudo o que quis, e que ia conseguir de novo. Que ele ia reconquistar tudo e encher todo mundo de orgulho. Bem, nós temos orgulho. É bem verdade que já tivemos motivos para orgulho zero vindo dele, mas isso passa. O bom orgulho fica.
Meu tio passou os últimos tempos me dizendo que nós ganharíamos muito dinheiro se trabalhássemos juntos. E eu, que não quero dinheiro e só quero amar, dizia para ele que o tempo diria. No fundo eu ajudo meus tios pelo simples desejo de ajudar mesmo, pois se não fossem da minha família eu certamente não faria certos trabalhos que não gosto e não pagam bem. Em abril meu tio me ligou para pedir um trabalhinho simples que se tornou longo e chato. E para não ferir o orgulho dele pedi um valor simbólico, pois ele não queria favor.
Ele apareceu em casa vários domingos pela manhã para resolver questões do trabalho. Sempre me dizendo que estávamos aprendendo, e que nos próximos seria tudo mais fácil e ganharíamos muito dinheiro. Eu sorrio nessas ocasiões, pois eu adoro ajudar mas não tenho pretensão alguma com isso. Então não contrario, não digo 'estou fazendo apenas para te ajudar', pois gosto que as pessoas de minha família tenham metas e gosto de saber que pensam em partilhar sucessos comigo. Daí sorrio, e só. O tempo se encarrega do sim ou do não.
Então meu tio levou o projeto para aprovação e me ligou diariamente até a que fosse aprovado, dizendo que me pagaria assim que possível. A cada telefonema ele dizia 'Riqueza, eu vou te pagar dia tal'. E eu dizia para que não se preocupasse, que eu queria mesmo era aprovar o trabalho. Eu não estava nem aí para o dinheiro, comemorei mesmo foi quando aprovaram o projeto dele e o vi bem sucedido e cheio de promessas de um novo cliente. Esperei muitas vezes durante a vida em ganhar na loteria para ajudá-lo, mas enfim eu encontrava uma forma mais palpável de fazer isso e me senti realizada, como a quem ajuda um pai (que é um papel que ele desempenhou melhor que o meu próprio pai nos últimos tempos). Dia 11 pela manhã meu tio me ligou. Ele me disse: 'Riqueza, me passe o número da sua conta para eu depositar o seu dinheiro. Olha, é uma parte, depois te dou mais'. Eu sorri, mais uma vez, e respondi que não precisava nada a mais. Mas esse é o jeito dele.
Ultimamente eu tenho pânico de atender ao telefone. Há vezes que deixo tocar, respiro fundo e retorno a ligação depois. Não sei explicar, mas tenho medo, é estranho. Então no feriado do dia 12 o telefone tocou, eu deixei tocar. Depois vi que era minha mãe e retornei. Meu tio tinha tido um enfarto muito sério e estava em cirurgia. Corri para o hospital e lá fizemos plantão por dias. A cirurgia correu bem mas meu tio ficou sedado. Um dia subi e disse para ele que se eu soubesse que depositar o meu dinheiro lhe causaria tanto mal estar eu não tinha permitido. Uma lágrima escorreu no rosto dele, não sei se voluntariamente ou não, mas achei graça.
Alguns dias depois não consegui sair do trabalho a tempo de visitá-lo e comecei a passar muito mal. MUITO. Um mal estar que nunca tive na vida. Então liguei pra minha prima para avisá-la que iria no dia seguinte. Ela estava muito feliz, pois ele havia dado um salto na recuperação. Desligamos felizes e em 5 minutos ela me ligou de novo. Não atendi. Liguei em seguida e ela me disse que meu tio havia falecido.
Poucos entendem o meu choro por um tio, pois poucos têm o privilégio de ter uma família como a minha. Doeu muito pensar que ele não conseguiu reconquistar tudo, pois mais que eu duvidasse disso. No fundo ele teve tudo o que importa, mas isso não foi o suficiente para que enxergasse nesse mundo que ele era uma pessoa feliz. Os últimos tempos fizeram-no aparentar uma pessoa triste e muito mais velha do que realmente era. Um fato recente o envelheceu tanto que levei um susto quando o vi num espaço de 15 dias.
Dói muito. Não deve ser a dor da minha prima, da minha tia ou da minha avó. Mas dói pois eu sei que eu, meus irmãos e meus primos éramos filhos para ele. Ele tinha um orgulho de cada um... que só vendo para acreditar. E um bom humor. E disposição para recomeçar a cada dia. E desprendimento para ajudar os outros. E presença. E tantas coisas que nem sei listar.
Eu tenho uma preocupação exagerada com as palavras. Certa vez alguém me disse que a gente deve usar as palavras como se não houvesse amanhã, pois nunca sabemos quando a vida nos pregará uma peça e não seria bom que nossas últimas palavras para alguém fossem palavras de desamor. E no telefonema do dia 11, depois de pegar o número da minha conta, meu tio me disse 'olha, semana que vem te dou mais um pouco, você trabalhou muito. Te amo, princesa.' E eu disse que também o amava. E isso dói, mas me deixa feliz pois o ponto final da minha história com ele terminou da forma como sempre foi: com amor. Que, ao final, é a única coisa que importa.